Tuesday, March 11, 2014

Sobre a felicidade

Sempre me pego pensando em como o ser humano é estranho. Todo mundo sabe disso. Todo mundo lê jornal e quem se diz “de bem” ou “normal” fica chocado, deprimido, desgostoso, revoltado. Mas a estranheza que digo dessa vez é uma outra. Uma das muitas do ser humano. Desde pequenos somos programados... para buscar a felicidade nas coisas. Nossa felicidade, já na infância, é negociável. Somos ensinados que a felicidade é o presente, o biscoito favorito... isso nos tira daquela alegria pura e incondicional com a qual viemos ao mundo. Haveria forma de manter essa alegria desprendida em nossa sociedade? Vejo as crianças de hoje com IPHONE, Ipad, tanta coisa material... ter mais é ser mais feliz... a sociedade do jeito que é hoje é causa ou consequência desse tipo de comportamento? Nós, adultos, colocamos expectativas nas festas, nas viagens, nas roupas, nos carros, e será que temos um dia a dia feliz e sadio? Às vezes me pego pensando... onde será que erramos? Onde será que estamos indo? Onde queremos ir? Se temos tudo,e dentro de nós as coisas não preenchem? Vemos, através das redes sociais, pessoas cada vez mais carentes, mais dependentes, vemos as pessoas e suas insatisfações, suas necessidades de aparecer, de se auto afirmar, de impressionar... e porquê? É preciso fazer o caminho de volta. É preciso se desacostumar aos antigos padrões, que só nos fizeram uma ferida imensa na alma. É preciso viver cada dia com calma, com desapego... Por isso que, estranhamente, admiro quem perde tudo. Não por serem perdedores, mas por não terem mais nada a perder e por terem de aprender a viver sem tudo aquilo que antes julgavam imprescindível. É preciso aprender a viver na simplicidade. E saber que, se for condicionada, não é felicidade.

Tuesday, June 14, 2011

PONTE DE ADÃO



Não importa o quão loucas pareçam as histórias
sempre haverá um vestígio do que for verdade

Do espaço pode-se ver uma ponte em que ninguém acredita
unindo duas cidades

quando um mistério liga-se a outro
porém não se acredita mais em nada
siga o caminho que ninguém vê na estrada

há certas pontes
e outras coisas importantes
que só podem ser vistas de longe

Thursday, May 05, 2011


Há de ser bonito
Há de ser
Há de ser finito
Há de ser
Há de ser sereno
Há de ser perene
Há de ser efêmero

Há de ser pecado
Há de ser
Há de ser sagrado
Há de ser
Há de ser volúvel
Há de ser ambíguo
Há de ser altivo

Construirei nosso ninho
Nas paredes do penhasco
Pra que nenhum paparazzi
Ouse quebrar nosso casco
Nas pedras de uma caverna
Vou deixar a nossa história
Para que o vento do tempo
Não nos apague da memória

Há de ser impune
Há de ser
Há de ser insone
Há de ser
Há de ser escândalo
Há de ser relâmpago, ciclone

Há de ser exílio
Há de ser
Há de ser retiro
Há de ser
Há de ser luxúria
Há de ser promessa
Há de ser ternura

Cientistas e arqueólogos
Registrarão indícios
De que uma estranha energia
Paira por nossos vestígios
O sentimento resistirá
Aos tempos como fóssil
E o mundo então saberá
Que ali viveu o amor mais dócil

Construirei nosso ninho
Nas paredes do penhasco
Pra que nenhum paparazzi
Ouse quebrar nosso casco
Nas pedras de uma caverna
Vou deixar a nossa história
Para que o vento do tempo
Não nos apague da memória

Há de ser bonito
Há de ser
Há de ser finito
Há de ser
Há de ser sereno
Há de ser perene
Há de ser efêmero

Jorge Vercilo, Há de ser

Monday, April 18, 2011

Tudo é válido para se ter poesia?



Um caso digno de romances machadianos (o cenário nem se fala)
Uns braços à hora da Missa do Galo...
Olhares oblíquos (tão dissimulados!), triângulos amorosos (como em Dom Casmurro), traições (A cartomante) ou homens sem nenhum caráter, como o primo Basílio (esse de Eça), que subjugam e iludem iludem iludem suas mulheres e suas amantes...
Quartos de hotéis antigos, ambientação perfeita para sair do cotidiano vazio, moderno e insosso. Retomando os tempos onde até as mais fortes mulheres eram subjugadas (sim, é essa a palavra!) por sorrisinhos bestas e conversas baratas!
Qual o preço da poesia?
Sua alma, seu caráter, suas crenças, bons costumes e a família?
Desde que o mundo é mundo, assim se faz (e fazem) a poesia.

Sunday, April 03, 2011

Incen diário

Em mim tudo apagado
Não há âmbar, sofá vermelho
Sequer branco, sequer luas ou sóis
Nenhuma lembrança na face
do antigo rubor
de toda vez que desconfiavam de nós

Eu, que era um raio
Você, o que dissipa clarões
Eu, minimizando os fatos
Você, enxugando as paixões

fez de mim, que era brasa,
metade fumaça, metade carvão
Aconteceu como já se previa
Foi-se embora o forasteiro
Levando seu lampião

arrumo tudo rápido
- como quem disfarça o estrago -
e um cigarro na mão pálida
é a única ponta de luz
que trago

Tuesday, March 22, 2011

ÂMBAR




Tá tudo aceso em mim
Tá tudo assim tão claro
Tá tudo brilhando em mim
Tudo ligado
Como se eu fosse um morro iluminado
Por um âmbar elétrico
Que vazasse dos prédios
E banhasse a Lagoa até São Conrado
E ganhasse as Canoas
Aqui do outro lado
Tudo plugado
Tudo me ardendo
Tá tudo assim queimando em mim
Como salva de fogos
Desde que sim eu vim
Morar nos seus olhos

Maria Bethânia

Sunday, March 20, 2011





Tudo o quanto me falta
foi preenchido
por tua presença constante e cheia de rastros

o quão vão é o vazio que se tornou multidão
em meu peito
desde que teu cheiro me invadiu e deu vida às minhas flores

que vida é essa que ganho
quando pisas em meu jardim
ainda assim fazendo-me suspirar de amores!